Por Victor França

 Foto: Arquivo Nacional e Divulgação

 28 de outubro de 2021 - fonte: https://conexao.ufrj.br/2021/10/beatriz-nascimento-e-doutora-honoris-causa-in-memoriam-pela-ufrj/

 

 

O Conselho Universitário (Consuni), órgão máximo da UFRJ, concedeu o título póstumo de doutora honoris causa a Maria Beatriz Nascimento, mais conhecida por Beatriz Nascimento. O reconhecimento do Conselho aconteceu nesta quinta-feira, 28/10, sob unanimidade e aclamação.

 

“É um momento muito emocionante! Aplausos de pé para Maria Beatriz Nascimento, que passou por dificuldades de gênero, por ser mulher, e étnicas, por ser negra. Não estamos só homenageando uma intelectual negra, mas a genialidade da negritude. É com muita honra que sou eu, hoje, a reitora a conceder o título a ela, que morreu defendendo, justamente, o gênero feminino. Toda a vida de Beatriz foi marcada pela importância dos quilombos como espaços autônomos de expressão da negritude. É uma merecidíssima homenagem! Parabéns à família de Maria Beatriz Nascimento, à Escola de Comunicação (ECO), ao Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH) e à Comissão de Ensino e Títulos (CET)”, afirmou a reitora da UFRJ, Denise Pires de Carvalho.

 

A outorga do título de doutora honoris causa foi um pedido da ECO. Sergipana, historiadora, docente, roteirista, poetisa e ativista pelos direitos humanos de negros e mulheres brasileiras, Beatriz chegou a iniciar o mestrado em Comunicação na ECO sob orientação do professor Muniz Sodré, em 1994. No ano seguinte, aconteceu uma tragédia. Ela foi vítima fatal de feminicídio, em Botafogo, Zona Sul do Rio, pelo companheiro de uma amiga, por achar que ela interferia em sua vida privada. Beatriz havia aconselhado a amiga a terminar a relação por sofrer agressões.

 

Beatriz Nascimento era multifacetada | Foto: Divulgação

 

Beatriz deixou um legado em produção acadêmica: Kilombo e memória comunitária: um estudo de caso, publicado na revista Estudos Afro-Asiáticos; O conceito de quilombo e a resistência cultural negra, publicado na revista Afrodiáspora, que se tornou um de seus textos mais reeditados; a publicação do capítulo Introdução ao conceito de quilombo na coletânea Negro e cultura no Brasil, em 1987; O movimento de Antônio Conselheiro e o abolicionismo: uma visão da história regional, publicado na Revista do Patrimônio (Iphan), em 1997. A autora também publicou os seguintes textos: Por uma história do homem negro, Revista de Cultura Vozes,1974; Negro e racismo, Revista de Cultura Vozes, 1974; A mulher negra no mercado de trabalho, Jornal Última Hora, 1976; Nossa democracia racial, Revista IstoÉ, 1977; Daquilo que se chama cultura, Jornal IDE, 1986;A mulher negra e o amor, Jornal Maioria Falante, 1990.

 

“A diferenciação de prismas — do escravo para o negro — foi se tornando para Maria Beatriz Nascimento um horizonte de estudo, pesquisa e ativismo. Em seus primeiros escritos, na metade da década de 1970, ela delineou a ideia de uma “história do homem negro”, uma história negra feita por pessoas negras, algo incomum para a época”, lembra Clynton Lourenço Correa, relator do processo no Consuni.

 

Beatriz Nascimento fez graduação em História (1968-1972) e especialização (1979-1981) na UFRJ. Além disso, iniciou o curso de mestrado em História na Universidade Federal Fluminense (UFF). Parte de sua pesquisa, realizada de maneira independente de qualquer instituição acadêmica, consistia em observar — em campo e via documentação — os quilombos como sistemas alternativos à estrutura escravista, com potencial continuidade em favelas, particularmente no caso do Rio de Janeiro.

 

“A concessão do título póstumo de doutora honoris causa a Maria Beatriz Nascimento favorece a ampliação do conhecimento de quem dedicou a vida à análise, além da que vigorava naquela época, da temática de negros e negras no Brasil e à defesa dos direitos das mulheres. Maria Beatriz Nascimento praticou em vida o que pregava no seu ativismo”, destacou Clynton.

 

Por Carol Correia e Igor Soares

Ilustrações: Ana Montez e Guilherme Vairo (Coordcom/UFRJ)

Foto: Gabriela d’Araujo (Acervo Coordcom/UFRJ)

29 de outubro de 2021 - fonte: https://conexao.ufrj.br/2021/10/voce-sabe-como-se-faz-um-livro/

 

 

Em 29/10 comemora-se o Dia Nacional do Livro. Desde que essa revolucionária mídia tomou a forma como conhecemos hoje, muitas foram as transformações pelas quais ela passou, sobretudo relacionadas ao processo de produção e distribuição, seja física ou por e-books. Mas você sabe como um livro é feito? Tem ideia da quantidade de processos – e de pessoas – por que ele passa até que chegue ao leitor?

 

Para celebrar a data, o Conexão UFRJ conversou com Giu Alonso e Marcela Oliveira, profissionais formadas em Produção Editorial – curso de graduação ainda pouco conhecido, mas oferecido pela Escola de Comunicação (ECO) da UFRJ desde 1971, e que em 2022 passará a ser uma opção separada para ingresso pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

 

No geral, muitas pessoas conhecem apenas o início e o término do percurso editorial: quando o livro é escrito e quando é publicado. Entre esses dois extremos, no entanto, há uma série de profissionais e de atividades necessárias para garantir a qualidade da publicação. O início da jornada começa nas mãos do autor, que escreve a obra a partir de pesquisas, podendo ser um tema encomendado ou mesmo de sua vontade criativa. Depois disso, ela ainda passa por um longo caminho.

 

“Quase todos os livros publicados de forma tradicional têm uma trajetória semelhante dentro de uma editora profissional, sejam romance, culinária ou ensaios. O primeiro passo, antes da compra dos direitos autorais, é a avaliação editorial”, conta Giu Alonso, que se formou no curso de Produção Editorial em 2009.



A editora explica que profissionais conhecidos como scouts, especializados em monitorar e apontar tendências literárias, entram nessa etapa indicando às empresas quais livros, principalmente internacionais, podem ser interessantes. Os nacionais, por sua vez, podem chegar a partir de agentes, mas também diretamente pelos autores ou por meio de concursos literários.

 

É a partir desse momento que o editor entra em cena para avaliar o potencial de vendas, custos e se a obra trará lucro à empresa. Então é feita uma oferta para a compra dos direitos autorais e, se aprovada, o livro entra oficialmente em produção.

 

“A partir da formalização do contrato, a editora recebe o original da obra, de preferência finalizado. Nos casos de lançamento mundial, por exemplo, recebemos o texto enquanto ele ainda está sendo editado lá fora, e é uma loucura, porque a editora estrangeira tem que mandar cada alteração que faz para que a gente também altere no nosso arquivo durante a produção”, explica Marcela Oliveira, também formada pelo curso, em 2013.

 

Se o livro for em língua estrangeira, a etapa seguinte é a tradução, uma das mais complexas e, portanto, demoradas do processo. As  editoras contam com um rol de colaboradores terceirizados de confiança para esses trabalhos. Giu trabalhou por quase cinco anos como tradutora freelancer para várias editoras. “Foi uma experiência enriquecedora e uma possibilidade para as pessoas formadas em Produção Editorial, que muita gente não se dá conta de ser possível.”

 

Depois de traduzido – ou do recebimento do texto original, no caso de obras nacionais –, o material ainda passa por diversas fases de revisão: os autores e tradutores, mesmo experientes, não são infalíveis. A primeira etapa é chamada de preparação de originais ou copidesque. Essa atividade consiste em uma revisão de conteúdo para solucionar possíveis problemas de trama/estrutura. Portanto, se há repetições injustificáveis, ideias desconexas, falta de coesão e de coerência e despadronização ao longo do texto, é preciso “copidescar”, como se fala no meio editorial. Nesse sentido, o profissional de texto pode fazer avaliações sobre a estrutura da obra, sugerindo cortar algumas partes ou que o autor altere outras, mas sempre respeitando seu estilo. Em títulos que foram traduzidos de outras línguas, cada parágrafo é checado, em um processo conhecido como “cotejo”, que busca identificar possíveis saltos na tradução.

 

“Aqui, o que antes estava em um editor de texto ganha o formato de páginas de livro. Nesse momento, também começamos a produção da capa, que pode ser uma criação original ou adaptação de uma arte estrangeira: são aqueles casos em que o livro em português tem a mesma capa da edição original”, explica Marcela.

 

Depois de diagramado, o material volta para o setor editorial, onde passará por outras revisões a fim de evitar problemas que possam ter ocorrido durante a transição de formato do arquivo e, também, eventuais erros que tenham passado na leitura anterior. Essas revisões são mais simples, orientadas para identificar erros de digitação e diagramação, além de questões de ortografia e gramática. Nessa etapa, é comum que as obras passem por mais uma ou duas leituras – a depender do cronograma das editoras.

 

Então chega o momento de o livro ganhar vida fisicamente: a impressão. Na gráfica, que pode ser interna ou externa à editora, são feitos diversos testes e provas de cor; posteriormente, as páginas são impressas. Normalmente, são organizadas em cadernos, impressos na frente e no verso de uma única folha. Depois de dobrados e intercalados, os diversos cadernos constituem o miolo do livro ou de uma revista  – seguem uma ordem diferente para serem recortados e dobrados. É nesse momento que o miolo se une à capa e o livro nasce.

 

Depois de passar por avaliação de controle de qualidade dentro das próprias editoras, o livro segue para a distribuição nas livrarias de todo o país, com estratégias comerciais que vão pensar a melhor forma de posicionar o produto no mercado e nas lojas. A assessoria de imprensa e o marketing também colaboram com essa etapa, fazendo a divulgação por meio de veículos de comunicação, mídias sociais, campanhas, eventos e ações para aproximar o livro e o autor do público. Depois de todo esse percurso, finalmente ele está pronto para chegar ao leitor!

 

Na ilustração, sob fundo amarelo, um caminhão-baú está parado com o bagageiro aberto, de onde saem diversos livros. Ao lado, um homem está sentado em uma cadeira lendo um dos livros. Ao seu redor, uma pilha de exemplares se forma.

O curso de Produção Editorial

Para trabalhar no mercado editorial, o profissional pode passar por diversas formações, como Letras, Comunicação Social e Administração. Porém, a UFRJ também oferece um curso específico que pensa a produção do livro de forma integral: o  de Produção Editorial (PE) é ministrado na instituição há 48 anos. O único curso de graduação na área do Rio de Janeiro começa, a partir de 2022, a ter ingresso independente das outras habilitações de Comunicação Social.

 

“Existem muitos caminhos para se trabalhar com livros, mas o que permite que o estudante tenha a visão mais ampla do negócio e se torne um editor mais completo certamente é a Produção Editorial”, defende Giu.

 

Isabel Travancas, professora e coordenadora de PE, conta que o curso foi criado inicialmente como Editoração, em 1967, e, no ano seguinte, tornou-se um departamento dentro da ECO, convertendo-se em habilitação oficialmente em 1971.

 

Até 2021, os interessados  ingressavam no curso de Comunicação Social pelo Enem e Sistema de Seleção Unificado (Sisu). Apenas no quarto período, depois de um ciclo básico teórico, podiam escolher uma habilitação específica, entre Jornalismo, Publicidade e Propaganda, Rádio e TV e Produção Editorial. A partir do próximo ano, os estudantes deverão escolher diretamente pela opção de Produção Editorial no Sisu.

 

“O aluno cursará disciplinas teóricas e práticas como: Processos Gráficos, Marketing para Produção Editorial, Edição de Livros, Layout Editorial, Produção de Livro, Direitos Autorais, Literatura Infantil, Gêneros Literários, Laboratório de Design Gráfico, Quadrinhos e Linguagens Digitais, entre outras”, enumera a professora.

 

Isabel ainda destaca que o Rio de Janeiro é um dos principais polos de produção editorial no Brasil, concentrando um número significativo de editoras, além de empresas e instituições públicas que podem empregar os profissionais na elaboração de produtos editoriais em diferentes suportes, na área de design e produção de games etc.


Giu e Marcela, que se formaram no curso, atuam em editoras cariocas e já passaram por diferentes setores durante suas trajetórias profissionais. As duas lembram que sempre foram fãs de leitura e encontraram em PE a opção de trabalhar com o que amavam, conhecendo, na teoria e na prática, as ferramentas para ingressar no mercado de trabalho.

 

Giu acredita que tanto o curso quanto o mercado se modernizaram muito nos últimos anos. Formada em 2009, a profissional viu, pelo contato com colegas formados mais recentemente, que o currículo de PE teve uma atualização, incluindo conteúdos como quadrinhos e literatura fantástica, que têm cada vez mais destaque com o público. “Eu me sinto com sorte por trabalhar em uma indústria tão vital e tão importante para a formação de cidadania de um país”, revela.

 

Segundo dados da última pesquisa Retratos da Leitura, publicada em 2020, apenas 52% dos entrevistados tinham lido um livro inteiro ou parte dele nos últimos três meses. O levantamento mostra que o país ainda lê pouco e precisa de estímulos para ter mais acesso à literatura. Espera-se que o profissional formado em Produção Editorial também possa pensar os principais caminhos para a popularização do livro, como a diminuição de seu custo, o incentivo a bibliotecas comunitárias e escolares e o estímulo à produção nacional, dando espaço aos profissionais editoriais e autores brasileiros com suas vivências muito mais próximas.

 

“É importante ser um bom leitor, gostar em primeiro lugar da língua portuguesa e ler literatura escrita em português. Grande parte do nosso mercado é formada por traduções do inglês, mas temos sempre que priorizar o leitor brasileiro, e isso significa tornar o livro acessível e relevante para o país inteiro, valorizar nossa língua e nossas tradições. É fundamental também entender nossa realidade social, ter senso crítico e encarar o livro como um instrumento político que pode transformar a vida das pessoas”, conclui Marcela.

28 de outubro

 

 

 

28 de outubro é dia de homenagear as pessoas que trabalham para servir o público e a ECO agradece taes e docentes pela dedicação e comprometimento em suas respectivas atividades. As aulas, eventos, palestras, pesquisas, administração, secretarias, produções diversas realizadas por cada pessoa da nossa Escola devem ser comemoradas sempre.

 

Parabéns, servidoras e servidores.

 

beatriz nascimento

 

Dia 28 de outubro de 2021, a UFRJ aprovou, em reunião do Consuni, a concessão do Título de Doutora Honoris Causa à Maria Beatriz Nascimento. O pedido partiu da Escola de Comunicação da UFRJ, que constituiu Comissão para elaboração de Memorial com a história da intelectual e a sua importância para a Sociedade. Este relatório foi aprovado pela Congregação da ECO e pelo Conselho do CFCH antes de ser apresentado ao Conselho Universitário da UFRJ. Abaixo trechos dos documentos que comporam o processo.

 

" Ao longo de 23 anos entre a sua formação em história e a morte precoce em decorrência de violência contra a mulher, em 1995, Nascimento ocupou um lugar de protagonista entre intelectuais negras/os no Rio de Janeiro e em São Paulo, tendo publicado estudos pioneiros no campo da história conectada entre Brasil/África, bem como atravessou a barreira disciplinar produzindo poesia e atuando na área das artes. "

Trecho retirado do Parecer apresentado em 22/7/21 no Conselho de Coordenação do CFCH

 

"Sua passagem pela terra marcou profundamente nossa memória social. Seus pensamentos, suas reflexões e sua intelectualidade generosa rompem com o binarismo ativismo/academia. Nascimento pavimentou caminhos, traçou outras rotas, fez viagens interiores e exteriores para que possamos ampliar o sentido de estarmos neste mundo. Antecipatória. Decolonial, antes mesmo do termo. Interseccional em suas abordagens, pioneira em seus estudos sobre quilombos. É chegado o momento de nós, enquanto corpo social de uma universidade viva, saibamos responder a altura aos desafios do presente e reconhecer existências que empreenderam esforços monumentais para uma sociedade um pouco mais justa, antirracista, democrática. Mais ainda, assumir e lutar pela universidade que queremos: a que aprende com seus erros (que são estruturais da sociedade brasileira) e os repara. A universidade contemporânea na qual são imprescindíveis de múltiplas vozes e saberes."

Trecho retirado do Memorial da Comissão composta por representantes da UFRJ - ECO, EBA, MEDICINA, NUTES - e UFMG, de 7/6/21

Nota falecimento Andre

 

 

 

A Escola de Comunicação lamenta o falecimento do professor André Fábio Villas-Boas em 26/10/2021. André era pesquisador nas áreas de design e comunicação visual, ministrou disciplinas de design editorial e produção gráfica na graduação da ECO e na pós graduação da EBA. Em sua memória, a ECO estará de luto oficial pelos próximos 3 dias. Agradecemos com carinho a contribuição de André para a ECO e nos solidarizamos com a dor da família e de todas as pessoas que o amavam. O velório será dia 28 de outubro, no Crematório da Penitência, sala 8, das 11h às 14h.

UFRJ Escola de Comunicação da UFRJ - ECO/UFRJ
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